sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Filho de ex-presidente também está sujeito a golpes...
Pelo menos, parece ser o que o filho mais velho do Lula acha...
Impressionante, o sujeito acha que a imprensa não deve noticiar um favor de um (agora ex-) ministro para um filho de um ex-presidente, que essa imprensa é golpista. Não deve ter se acostumado ainda com o fato de não ter mais o pai oficialmente na presidência...
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Confiança e desenvolvimento
Eis um paper (para a versão aberta, veja esse link) bastante legal mostrando o impacto de uma cultura de confiança sobre PIB per capita (o que o paper acrescenta é um método de avaliar a questão mais limpo, com menos endogeneidade e variáveis omitidas que os outros papers que falam do tema).
Existe uma literatura bastante grande (e crescente) em economia tentando falar dos impactos econômicos de se ter um ambiente de confiança nos outros (para algumas referências, veja os papers do Luigi Zingales sobre o tema, dentre outros que escreveram sobre o tema). Porém, essa literatura nunca foi capaz de identificar muito bem o efeito causal de confiança sobre desenvolvimento econômico. Uma outra literatura trata de identificar bem os impactos de cultura sobre o comportamento de pessoas (uma boa referência aqui são os papers da Raquel Fernandez), mas essa literatura ainda não tinha sido capaz de tratar da "grande questão" (por falta de um termo melhor): cultura de confiança gera desenvolvimento econômico? O paper que eu citei me parece ter feito um bom trabalho nessas duas direções: identifica efeitos causais e responde às perguntas grandes.
Me parece, porém, que faltam muitas coisas nessa literatura: para começar, falta entender o que é confiança. Ela representa algum valor de altruísmo com relação a outros, altruísmo esse que pode ajudar um grupo a superar problemas de bens públicos e externalidades essenciais a produção de riquezas? Ou ela representa o bom funcionamento de contratos informais? Em outras palavras, o ponto a ser feito sobre confiança é sobre valores e crenças, ou sobre instituições de facto (ou sobre os dois)?
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Accountability virou tentativa de golpe
Pelo menos, é o que o presidente Lula parece achar...
Alguém tem que avisar o presidente Lula: ou ele acredita no fato de que uma das ações do legislativo é vistoriar o executivo e lutar para que este não abuse dos seus poderes; ou ele não acredita em democracia e separação de poderes.
domingo, 7 de novembro de 2010
O que fazer quando você prepara uma prova cheia de erros e os alunos te denunciam?
Se for para seguir o exemplo do MEC, aparentemente a resposta é: ameaça processar aqueles que te denunciam e coloca a culpa dos seus erros nos alunos que supostamente "já dançaram"... acho que eu nem preciso escrever texto para dizer que, provavelmente, não existe argumento para justificar essa postura do MEC com relação ao ENEM.
Nota 1: pelo jeito, chegou no MEC a prática do governo Lula (e de outros políticos) de não reconhecer os seus erros, não trabalhar para corrigí-los e intimidar quem denuncia os seus erros.
Nota 2: não se processa quem colou e/ou postou mensagens no twitter no meio da prova. O procedimento é anular as provas de quem fez esses atos. A ameaça do MEC não é coerente com intimidação de trapaça, só é coerente com intimidação de quem está reclamando dos erros da prova.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Quem elegemos para a presidência do Brasil
Em primeiro lugar, gostaria de ressaltar que os dois candidatos do segundo turno eram muito ruins. O Serra é um candidato disposto a prometer qualquer coisa em troca de votos (inclusive aumentar o salário mínimo para 600 reais - acabando com as contas da previdência). Mas, pior que isso, foi um candidato com uma campanha extremamente burra.
Agora, independente disso, elegemos a candidata com as piores promessas em quase todas as dimensões. Para começar, vamos olhar para as propostas de educação. A evidência diz: a melhor política educacional é prover incentivos para os professores estarem dentro de sala de aula e ensinarem bem (proposta do Serra), e não educar e "valorizar" os professores (proposta da Dilma). Explicando melhor: ter um bom professor muda em muito o desempenho dos alunos (mais especificamente, alunos com professores diferentes têm notas, em média e variância, muito diferentes). Porém, o nível de educação do professor explica pouquíssimo dessa "qualidade" do professor (experiência em sala de aula explica um pouco mais). Por outro lado, dar salários condicionais no desempenho das turmas faz muita diferença na nota dos alunos. Passando às propostas de ampliar ensino infantil, esse foi um ponto positivo da campanha. Ainda assim, os candidatos focaram pouco em qualidade do ensino fundamental; para focar muito em oferta no ensino médio e de ensino profissional. Faltou ainda foco em como reduzir, sem truques, a repetência e a evasão do ensino fundamental. Afinal, de que adianta ofertar ensino médio e profissional sem um fundamental de qualidade e com as taxas atuais de evasão escolar no meio do fundamental?
Olhando para as propostas de saúde agora: o programa Saúde da Família estagnou durante o governo Lula e a Dilma pouco falou dele (já o Serra, no último debate, propôs unificar o Bolsa Família com o programa Saúde da Família, o que me parece uma ótima idéia). O programa manda médicos e assistentes médicos para ajudar famílias em comunidades carentes a tratar de problemas básicos de saúde que essas pessoas não sabem tratar por conta própria. Queira ou não queira, o Brasil ainda não é um país que superou problemas de mortalidade e morbidade decorrentes de problemas de saúde básica. O acesso à boa infraestrutura de saneamento básico, durante o governo Lula, aumentou muito pouco. Ou isso é contrário ao que a Dilma disse, ou é uma péssima notícia, já que ela disse que o governo Lula investiu muito em saneamento básico.
Com relação aos investimentos públicos, de novo, podemos olhar para o histórico do governo Lula. Apesar do aclamado PAC, o governo Lula só subiu a taxa de investimentos com relação ao PIB no último ano do seu governo, levantando suspeitas de investimentos eleitoreiros. As cretinices feitas pelo governo Lula em termos de política fiscal, políticas regulatórias (tanto de energia, quanto de anti-truste), de licitações esculhambadas e redistribuição às avessas via empréstimos para o BNDES (lembrem, todas essas cretinices foram aclamadas pela campanha da Dilma) merecem um post só para elas, e deixarei para comentar depois sobre isso...
Eu não sei...se me falassem na televisão que o governo Lula deu, em empréstimos do BNDES para 40 empresas, 7 vezes o que ele deu de bolsa família; o quão vergonhosas são as políticas regulatórias implementadas pela Dilma na área energética (supostamente, especialidade dela, algo a ser tratado em outro post); os factóides que a Dilma inventou em termos de investimentos em saneamento básico e saúde; e a ignorância completa da campanha da Dilma em termos de política educacional...não faria diferença? Mas agora as eleições já passaram, vamos torcer para a nova presidente fazer um governo bom e que melhore os pontos ruins do governo Lula (mantendo os pontos bons).
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Nosso vizinho é acusado de terrorismo
É o que dois membros do ETA disseram ao ser presos:
Artur Cubillas é membro do governo Hugo Chávez desde 2005. Deportado da Espanha e com prisão decretada neste país, ele estaria oferencendo, nos últimos anos, um curso para membros do ETA aprenderem a decifrar mensagens, limpar e desmontar armas, além de posições de tiro.
O governo Chavez e seus membros não só estão acabando com a Venezuela como interferem pesada e perniciosamente na política de outros países (e essa não é a primeira evidência disso....). Isso me parece mais um triste caso de governantes usando a política externa das formas mais perversas possíveis para atestar ideologia política (e nós brasileiros já sabemos dos últimos 8 anos como isso funciona...). Alguma outra teoria para explicar isso?
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Censurando a The Economist
Eis os países que fizeram censura da The Economist. Em geral, a censura ocorre quando a revista cobre assuntos políticos locais (por exemplo, isso foi censurado na Líbia; na China, revistas são destruídas, artigos arrancados e mapas de Taiwan são colocados em preto). Mas também tem os casos mais "peculiares" (pra ser politicamente correto uma vez na vida....), em que a última edição de natal, com uma figura de Adão e Eva na capa, foi censurada em cinco países por mostrar os seios de Eva e por retratar figuras do Alcorão (Adão também não pode ser retratado)...
domingo, 29 de agosto de 2010
O Banco Nacional da DESigualdade
Recentemente, o Governo Federal iniciou uma política de tomada de dívida pelo tesouro à taxa SELIC (atualmente, em 10,75%) para emprestar para empresas via BNDES a juros de 6% ao ano. Em outras palavras, o governo está subsidiando massivamente empréstimos para pessoas jurídicas.
Alguns argumentam que esses empréstimos foram feitos à título de políticas contra-cíclicas, para evitar uma queda no PIB durante a crise. Chegaram até a falar: se essas políticas não tivessem sido feitas, o PIB teria caído 3%, ao invés da queda de 0.2% que de fato ocorreu (por exemplo, o Guido Mantega falou algo nessa linha). Outros argumentam que as medidas do tesouro foram irresponsabilidade fiscal, tendo aumentado significativamente os custos da dívida pública e não tendo esse efeito contra-cíclico tão forte (um bom texto sobre isso é este).
Aqui, eu vou apresentar alguns dados (coletados pela Folha de São Paulo da página do BNDES, que correspondem à 2/3 dos recursos emprestados pelo banco entre 2008-2010) que não só tornam os argumentos dos segundos mais prováveis, como evidenciam uma política massiva de concentração de renda.
A tabela tem algumas coisas marcantes: em primeiro lugar, o volume dos empréstimos na página do banco é impressionantemente grande, de 50 bilhões em 2008, de 101 bilhões em 2009 e de 18 bilhões em 2010. Em segundo lugar, esse volume todo de empréstimos foi para somente 426 empresas em 2008, 442 empresas em 2009 e 206 empresas em 2010 (várias delas sendo de um mesmo dono). Por fim, as cerca de 40 firmas em 2008, 40 firmas em 2009 e 20 firmas em 2010 que mais receberam recursos (estamos olhado para firmas acima do percentil 10%) receberam cerca de 60-70% dos recursos emprestados em cada ano (algumas dessas firmas recebem empréstimos em 2008, 2009 e 2010).
Além do fato de que boa parte desses empréstimos se iniciou após a retomada de atividade econômica no meio de 2009 (de novo, veja esse texto), não é razoável supor que emprestar 70 bilhões para 44 empresas em 2009 (ou emprestar 33 bilhões para 42 empresas, ou 13 bilhões para 20 empresas) tenha tido um impacto razoável em termos de recuperação de uma crise macroeconômica. Em primeiro lugar, não acredito que essas empresas venham a ser responsável por parte considerável do emprego no Brasil. Em segundo lugar, essas empresas estão recebendo empréstimos de cerca de 1 bilhão de reais em média (dependendo do ano), e não acredito, a priori, que empresas com esse porte tivessem restrições de crédito anteriormente. É mais fácil imaginar que, ao invés de estarem tomando novos empréstimos que elas não tomariam antes, que essas empresas simplesmente pararam de tomar empréstimos com seus credores anteriores (que deviam emprestar montantes parecidos).
Não sei se os empréstimos não listados na página do BNDES tiveram um impacto significativo sobre a recuperação macroeconômica no pós crise (e avaliar essa questão é difícil, dado que o governo iniciou, no mesmo período, diversos gastos temporários e permanentes para permitir uma recuperação da crise). Porém, eu tenho bastante segurança em afirmar que 32 bilhões em recursos disponíveis em 2008, 73 bilhões em recursos disponíveis em 2009 e 13 bilhões em recursos disponíveis em 2010 devem ter tido pouco impacto na recuperação macroeconômica brasileira. Ao invés disso, esses recursos serviram para o tesouro adquirir uma quantidade significativa de dívida, que terá de ser recompensada por mais impostos pagos pelos contribuintes brasileiros.
Ou seja, esse é um mega-evento de rent-seeking do PT junto à empresas grandes nas vésperas da eleição (provavelmente, para o PT buscar apoio de empresas grandes com verbas de campanha e apoio oficial das empresas ao governo). Mais ainda, é uma mega-política de redistribuição as avessas, onde o contribuinte terá de pagar impostos maiores no futuro para empresas gigantes terem crédito mais barato. Essa é a mais típica política pra agradar lobby: tirar de muitos para dar para poucos.
Alguns argumentam que esses empréstimos foram feitos à título de políticas contra-cíclicas, para evitar uma queda no PIB durante a crise. Chegaram até a falar: se essas políticas não tivessem sido feitas, o PIB teria caído 3%, ao invés da queda de 0.2% que de fato ocorreu (por exemplo, o Guido Mantega falou algo nessa linha). Outros argumentam que as medidas do tesouro foram irresponsabilidade fiscal, tendo aumentado significativamente os custos da dívida pública e não tendo esse efeito contra-cíclico tão forte (um bom texto sobre isso é este).
Aqui, eu vou apresentar alguns dados (coletados pela Folha de São Paulo da página do BNDES, que correspondem à 2/3 dos recursos emprestados pelo banco entre 2008-2010) que não só tornam os argumentos dos segundos mais prováveis, como evidenciam uma política massiva de concentração de renda.
A tabela tem algumas coisas marcantes: em primeiro lugar, o volume dos empréstimos na página do banco é impressionantemente grande, de 50 bilhões em 2008, de 101 bilhões em 2009 e de 18 bilhões em 2010. Em segundo lugar, esse volume todo de empréstimos foi para somente 426 empresas em 2008, 442 empresas em 2009 e 206 empresas em 2010 (várias delas sendo de um mesmo dono). Por fim, as cerca de 40 firmas em 2008, 40 firmas em 2009 e 20 firmas em 2010 que mais receberam recursos (estamos olhado para firmas acima do percentil 10%) receberam cerca de 60-70% dos recursos emprestados em cada ano (algumas dessas firmas recebem empréstimos em 2008, 2009 e 2010).Além do fato de que boa parte desses empréstimos se iniciou após a retomada de atividade econômica no meio de 2009 (de novo, veja esse texto), não é razoável supor que emprestar 70 bilhões para 44 empresas em 2009 (ou emprestar 33 bilhões para 42 empresas, ou 13 bilhões para 20 empresas) tenha tido um impacto razoável em termos de recuperação de uma crise macroeconômica. Em primeiro lugar, não acredito que essas empresas venham a ser responsável por parte considerável do emprego no Brasil. Em segundo lugar, essas empresas estão recebendo empréstimos de cerca de 1 bilhão de reais em média (dependendo do ano), e não acredito, a priori, que empresas com esse porte tivessem restrições de crédito anteriormente. É mais fácil imaginar que, ao invés de estarem tomando novos empréstimos que elas não tomariam antes, que essas empresas simplesmente pararam de tomar empréstimos com seus credores anteriores (que deviam emprestar montantes parecidos).
Não sei se os empréstimos não listados na página do BNDES tiveram um impacto significativo sobre a recuperação macroeconômica no pós crise (e avaliar essa questão é difícil, dado que o governo iniciou, no mesmo período, diversos gastos temporários e permanentes para permitir uma recuperação da crise). Porém, eu tenho bastante segurança em afirmar que 32 bilhões em recursos disponíveis em 2008, 73 bilhões em recursos disponíveis em 2009 e 13 bilhões em recursos disponíveis em 2010 devem ter tido pouco impacto na recuperação macroeconômica brasileira. Ao invés disso, esses recursos serviram para o tesouro adquirir uma quantidade significativa de dívida, que terá de ser recompensada por mais impostos pagos pelos contribuintes brasileiros.
Ou seja, esse é um mega-evento de rent-seeking do PT junto à empresas grandes nas vésperas da eleição (provavelmente, para o PT buscar apoio de empresas grandes com verbas de campanha e apoio oficial das empresas ao governo). Mais ainda, é uma mega-política de redistribuição as avessas, onde o contribuinte terá de pagar impostos maiores no futuro para empresas gigantes terem crédito mais barato. Essa é a mais típica política pra agradar lobby: tirar de muitos para dar para poucos.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Serra contra-ataca e se mantém estável no 2o. lugar no concurso de pior candidato
A Dilma ainda é primeiro lugar no concurso de pior candidato. Marina vem em terceiro. De novo, não vou incluir o Plinio de Arruda Sampaio porque ele faz concorrência desleal em propostas ruins. Faço outro post depois dizendo o que eu acho tosco em cada candidato.
Serra defende mais proteção comercial para o país. Quer dizer, Serra não só defende que os consumidores brasileiros paguem mais caro pelos produtos que precisarem comprar (e que as empresas que compram os produtos protegidos paguem mais caro pelo que elas precisarem comprar), como defende também mais lucros para empresas as custas de salários reais mais baixos para os trabalhadores brasileiros.
Que mania que alguns dos candidatos atuais (mais especificamente, Dilma e Serra) têm de propor disfarçadamente o aumento da desigualdade de renda no Brasil...
Serra defende mais proteção comercial para o país. Quer dizer, Serra não só defende que os consumidores brasileiros paguem mais caro pelos produtos que precisarem comprar (e que as empresas que compram os produtos protegidos paguem mais caro pelo que elas precisarem comprar), como defende também mais lucros para empresas as custas de salários reais mais baixos para os trabalhadores brasileiros.
Que mania que alguns dos candidatos atuais (mais especificamente, Dilma e Serra) têm de propor disfarçadamente o aumento da desigualdade de renda no Brasil...
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Marina entra no concurso para ver quem é o pior candidato
Naturalmente, estou excluindo o Plínio de Arruda Sampaio do concurso, porque incluir ele seria competição desleal...
Agora, Marina Silva também defende a criação de uma assembléia constituinte especial para aprovar uma reforma política (este, este, e este outro são alguns links reportando a notícia). Com a Marina, ficam dois dos três principais candidatos a presidente neste ano defendendo a adoção de uma constituinte para a reforma política (o programa de governo do PT já propunha essa solução, e a Dilma admite essa possibilidade).
O problema dessa proposta é o seguinte: aprovar uma reforma política por meio de uma constituinte é uma forma fácil de se perpetuar no poder. Eis a receita: aprove voto distrital e desenhe distritos de forma a concentrar em poucos distritos o eleitorado da oposição e em muitos distritos o eleitorado da situação. Com isso, a oposição ganha em muitos distritos e consegue se manter no poder no legislativo, bloqueando propostas de qualquer futuro presidente da oposição. Para deixar claro: o problema não é o voto distrital, que tende a aumentar competição política local e reduzir corrupção (verdade, também tende a tornar a política mais local, porém, para um país que nem o Brasil, as necessidades são bastante locais). O problema é que, em uma constituinte, se pode aprovar leis novas por maioria simples, enquanto que no legislativo, só se pode alterar a constituição com maiorias qualificadas e após passar 2 vezes por cada casa. Taí porque aprovar voto distrital pelos meios legais (no Congresso) não é problemático, mas aprovar por meio de uma constituinte, é forma fácil de se perpetuar no poder...
Agora, Marina Silva também defende a criação de uma assembléia constituinte especial para aprovar uma reforma política (este, este, e este outro são alguns links reportando a notícia). Com a Marina, ficam dois dos três principais candidatos a presidente neste ano defendendo a adoção de uma constituinte para a reforma política (o programa de governo do PT já propunha essa solução, e a Dilma admite essa possibilidade).
O problema dessa proposta é o seguinte: aprovar uma reforma política por meio de uma constituinte é uma forma fácil de se perpetuar no poder. Eis a receita: aprove voto distrital e desenhe distritos de forma a concentrar em poucos distritos o eleitorado da oposição e em muitos distritos o eleitorado da situação. Com isso, a oposição ganha em muitos distritos e consegue se manter no poder no legislativo, bloqueando propostas de qualquer futuro presidente da oposição. Para deixar claro: o problema não é o voto distrital, que tende a aumentar competição política local e reduzir corrupção (verdade, também tende a tornar a política mais local, porém, para um país que nem o Brasil, as necessidades são bastante locais). O problema é que, em uma constituinte, se pode aprovar leis novas por maioria simples, enquanto que no legislativo, só se pode alterar a constituição com maiorias qualificadas e após passar 2 vezes por cada casa. Taí porque aprovar voto distrital pelos meios legais (no Congresso) não é problemático, mas aprovar por meio de uma constituinte, é forma fácil de se perpetuar no poder...
domingo, 15 de agosto de 2010
Serra promete 100 milhões de livros de graça
Esta é a notícia: o plano é dar livros para alunos e professores. O Serra deveria saber a diferença entre treatment e intention to treat: queira ou não queira, leitura de livros é algo opcional, e subsidiar livros está longe de ser é o suficiente para fazer as pessoas lerem. Afinal, vai ver, as pessoas não compram os livros exatamente porque elas não querem ler...
Não sei quantas vezes já escrevi isso aqui, mas a cada vez que eu ouço uma promessa nova da Dilma ou do Serra, mais eu me convenço que os dois estão disputando agressivamente para ver que é pior. Se eu tivesse leitores o suficiente no blog, eu iniciava uma campanha "vote Marina" (que eu não considero a candidata ideal, mas dado o nível do debate e dos programas de governo, é disparada a melhor candidata na minha opinião). Como a campanha não vai deslanchar, acho que o jeito é realmente votar com os pés.
Não sei quantas vezes já escrevi isso aqui, mas a cada vez que eu ouço uma promessa nova da Dilma ou do Serra, mais eu me convenço que os dois estão disputando agressivamente para ver que é pior. Se eu tivesse leitores o suficiente no blog, eu iniciava uma campanha "vote Marina" (que eu não considero a candidata ideal, mas dado o nível do debate e dos programas de governo, é disparada a melhor candidata na minha opinião). Como a campanha não vai deslanchar, acho que o jeito é realmente votar com os pés.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
O véu islâmico
Nos últimos anos, diversos países europeus começaram a proibir o uso pessoal de objetos religiosos em escolas, órgãos do governo e em outras ocasiões. Agora, o governo laico da Síria também proibiu o uso do véu islâmico em universidades, com medo da recente popularização do uso do véu e das potenciais conseqüências disso para um governo laico no Oriente Médio. Muitos argumentam em favor dessas leis, dizendo que o véu islâmico deve ser reprimido por ser uma opressão da mulher em grupos islâmicos.
Não sei, porém, se a restrição ao uso do véu é uma forma eficaz de reduzir a opressão da mulher no mundo islâmico: se o véu é uma forma de oprimir as mulheres no mundo islâmico (e não é simplesmente cumprimento da religião), os homens utilizam essa forma de opressão porque preferem tê-las oprimidas, e não por gostar do véu. A restrição ao véu torna mais caro para os homens um único meio de opressão das mulheres, o que induz os homens a substituirem o véu por outros meios de opressão. Mais ainda, o não cumprimento da religião pode se traduzir em menor poder de barganha da mulher em um domicílio islâmico religioso, e mais espaço para o homem oprimir a mulher. Colocando de outra forma, pode ser que a opressão ao véu acabe gerando mais opressão à mulher, que passa a ser aquela que não cumpre a religião, ao invés da protegida pela lei.
É importante que mulheres tenham direitos iguais aos dos homens de ir a escola e ter um trabalho, e é importante reprimir a violência doméstica contra mulheres. Para fazê-lo nesses lugares em que as mulheres são oprimidas, acredito que deveríamos subsidiar a ida de mulheres à escola, subsidiar o emprego de mulheres e fazer mais "leis Maria da Penha". Fazendo isso, não só tornaríamos esses meios de opressão mais caros, como também aumentaríamos o poder de barganha das mulheres dentro do domicílio. Aí sim eu teria mais segurança de que o Estado está lutando contra a opressão das mulheres.
Não sei, porém, se a restrição ao uso do véu é uma forma eficaz de reduzir a opressão da mulher no mundo islâmico: se o véu é uma forma de oprimir as mulheres no mundo islâmico (e não é simplesmente cumprimento da religião), os homens utilizam essa forma de opressão porque preferem tê-las oprimidas, e não por gostar do véu. A restrição ao véu torna mais caro para os homens um único meio de opressão das mulheres, o que induz os homens a substituirem o véu por outros meios de opressão. Mais ainda, o não cumprimento da religião pode se traduzir em menor poder de barganha da mulher em um domicílio islâmico religioso, e mais espaço para o homem oprimir a mulher. Colocando de outra forma, pode ser que a opressão ao véu acabe gerando mais opressão à mulher, que passa a ser aquela que não cumpre a religião, ao invés da protegida pela lei.
É importante que mulheres tenham direitos iguais aos dos homens de ir a escola e ter um trabalho, e é importante reprimir a violência doméstica contra mulheres. Para fazê-lo nesses lugares em que as mulheres são oprimidas, acredito que deveríamos subsidiar a ida de mulheres à escola, subsidiar o emprego de mulheres e fazer mais "leis Maria da Penha". Fazendo isso, não só tornaríamos esses meios de opressão mais caros, como também aumentaríamos o poder de barganha das mulheres dentro do domicílio. Aí sim eu teria mais segurança de que o Estado está lutando contra a opressão das mulheres.
sábado, 19 de junho de 2010
Mídia e cobertura de violência política
Turkey reported late last week that during operations in May, its forces killed some 130 Kurdish militants in Iraqi territorySe tem uma coisa que eu não entendo é o porquê de a mídia internacional cobrir que Israel matou 7 ou 9 militantes pró-Hamas que atacaram seus soldados, ou cobriu a violência política no Quênia após as últimas eleições, mas não cobrir que a Turquia mata militantes curdos em incursões contra curdos de iniciativa turca, ou que o governo do Sri Lanka quase acabou com o movimento dos Tigres de Tamil Eelat (que era um movimento separatista seletivo que só aceitava assassinos bem treinados) nos últimos 10 anos, e por aí vai. Mais ainda, eu não entendo o porquê de a mídia tomar um lado na questão de Israel, ou da Inglaterra contra o IRA, mas não tomar lado no caso do Quênia.
O que determina a cobertura de violência política pela mídia internacional? O que determina o viés da mídia nessas questões?
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Os políticos brasileiros e a sanções ao Irã
Recentemente, após a ONU aprovar sanções contra o Irã por seu programa nuclear, o chanceler Celso Amorim disse:
Amorim ainda teve a ignorância de falar:
Eu não sei porque, mais eu ainda me surpreendo com a dupla face da diplomacia brasileira atual: para os governantes de esquerda, tudo vale (inclusive abrir os nomes de votações e perseguir opositores), para os de direita, nada vale.
Referências:
Daron Acemoglu, Simon Johnson, James A. Robinson, Pierre Yared, "Income and Democracy", AER 98(3)
Markus Brückner, Antonio Ciccone, "Rainfall and the Democratic Window of Opportunity", Working Paper
Jeffrey DeSimone, Courtney LaFountain, "Still the Economy, Stupid: Economic Voting in the 2004 Election", NBER Working Paper 13549
"Nós não acreditamos em sanções"Claro...e como foi a reação da diplomacia brasileira à deposição de Manuel Zelaya em Honduras mesmo? Eles não queriam nem reconhecer presidente eleito...
Amorim ainda teve a ignorância de falar:
"Mais provável que [as sanções] tenham efeito negativo [sobre a continuidade do programa nuclear iraniano]"Isso é o cúmulo da falta de conhecimento de evidências. Alguém já viu evidências de que piores condições econômicas melhoram a posição do governo incumbente? Eu já vi várias contrárias...e, como feito de vez em quando aqui no blog, uma lista de referências sobre o tema segue o texto.
Eu não sei porque, mais eu ainda me surpreendo com a dupla face da diplomacia brasileira atual: para os governantes de esquerda, tudo vale (inclusive abrir os nomes de votações e perseguir opositores), para os de direita, nada vale.
Referências:
Daron Acemoglu, Simon Johnson, James A. Robinson, Pierre Yared, "Income and Democracy", AER 98(3)
Markus Brückner, Antonio Ciccone, "Rainfall and the Democratic Window of Opportunity", Working Paper
Jeffrey DeSimone, Courtney LaFountain, "Still the Economy, Stupid: Economic Voting in the 2004 Election", NBER Working Paper 13549
sábado, 5 de junho de 2010
Israel, Hamas e a flotilla de ajuda internacional
Existe uma mania mundial de pensar que tudo que se declara como ajuda humanitária é bom para o mundo e para as pessoas, e que só os perversos podem se prejudicar com tanto iluminismo. Isso não é verdade nem de acordo com os mais simples ditados de sabedoria popular...
Um exemplo claro de que nem sempre a ajuda internacional é boa é a recente flotilla de ajuda à Gaza. Para explicar o porquê disso, vale rever um pouco da história recente do conflito Israel-Hamas. O Hamas chegou ao poder em 2006 na faixa de Gaza, e expulsou de lá, na base da guerra, todos que fizessem oposição ao seu "governo" (assim como o al-Fatah fez na Cisjordânia). Tendo o controle da faixa de Gaza, o grupo manteve suas atividades de usar casas de civis palestinos para lançar mísseis (obtidos com financiamento iraniano) e tentar matar cidadãos israelenses. Por esse motivo, Israel criou um bloqueio à entrada de cimento, máquinas e outras coisas que pudessem ser usadas pelo Hamas na criação de armazéns de armas, túneis subterrâneos para contrabando, construção mísseis e nos ataques frequentes que o movimento fazia à Israel (para quem não conhece, procure se informar sobre a rotina da cidade de Sderot antes da guerra contra o Hamas, que era alvo de um míssil por dia). Por esse motivo também que houve a guerra contra o Hamas no final de 2008.
O grande problema dos palestinos na Faixa de Gaza é o Hamas no poder. Este é um movimento que governa sem oposição, comprando e forçando a população a agir de acordo com a agenda do grupo. Isso é feito de forma bastante simples: para oferecer ajuda internacional, os recursos devem passar pelas mãos do Hamas, para que o Hamas distribua os recursos de acordo com os seus interesses. Aqueles que não oferecerem suas casas como base de lançamentos de mísseis serão punidos, tanto com base em redução do acesso à serviços públicos, quanto com base em violência.
O bloqueio a Gaza, no final, tende a enfraquecer o Hamas: em primeiro lugar, o movimento perde recursos para fazer ajuda internacional. Em segundo lugar, as más condições econômicas favorecem o aparecimento de novos grupos que sejam capazes de competir politicamente com o Hamas, seja legal ou ilegalmente. Por fim, mesmo que o Hamas reaja às más condições econômicas com repressão da oposição, ele estará mais enfraquecido assim do que sob boas condições econômicas: se isso não fosse verdade, o Hamas forçaria as más condições econômicas por conta própria e se utilizaria de repressão em momentos de boas condições econômicas (o que não me parece nem um pouco razoável). O povo palestino na Faixa de Gaza se prejudica enormemente dessa situação. Mas devemos deixar bem claro: o problema dos moradores da Faixa de Gaza é o poder do Hamas, e o enfraquecimento do Hamas (com a manutenção de algum grupo pacífico que faça ajuda social) é a única política possível para melhorar a vida dos palestinos no longo prazo. O problema é que não conhecemos nenhuma política diferente de sanções que seja capaz reduzir a força de um movimento político no poder.
Após a longa digressão para entender o porquê do bloqueio econômico à Gaza, eu volto ao caso da flotilla. A flotilla estava em desacordo com a lei de um país democrático e soberano, que impôs um bloqueio econômico a uma região dominada por um movimento terrorista que transforma os seus civis em militares (ao forçá-los a usar suas casas como bases de lançamentos de mísseis). Os membros da flotilla disseram que não entregariam a ajuda nas mãos de Israel, pois eles nao ditribuiriam o cimento, as máquinas e a ajuda de reconstrução. O que eles "não perceberam" é que eles, ao fazer essa escolha, estão entregando a ajuda nas mãos do Hamas. A flotilla não tomou o lado do povo palestino: ela tomou o lado do Hamas contra Israel. Ela agiu na direção de perpetuar um grupo político populista e violento, e de continuar subjugando o povo palestino aos maus governos que o povo tem enfrentado.
O pior é que, quando Israel tenta se proteger e fazer a lei valer, os seus militares são recebidos na base da porrada. A sabedoria popular nos diz: o inferno está cheio de boas intenções, talvez até melhores que as da flotilla.
ATUALIZAÇÃO 1: O relato de serviços de inteligência israelenses sobre a preparação da flotilla está aqui. O relato também fala sobre as ligações do primeiro ministro turco, Recep Tayyip Erdogan com o grupo que organizou a flotilla.
ATUALIZAÇÃO 2: Sobre ligações da organização da flotilla com o Hamas e outros movimentos terroristas árabes, o relato da central de inteligência israelense é esse. Alguém no Brasil tem que dizer qual é o lado de Israel na história...
Um exemplo claro de que nem sempre a ajuda internacional é boa é a recente flotilla de ajuda à Gaza. Para explicar o porquê disso, vale rever um pouco da história recente do conflito Israel-Hamas. O Hamas chegou ao poder em 2006 na faixa de Gaza, e expulsou de lá, na base da guerra, todos que fizessem oposição ao seu "governo" (assim como o al-Fatah fez na Cisjordânia). Tendo o controle da faixa de Gaza, o grupo manteve suas atividades de usar casas de civis palestinos para lançar mísseis (obtidos com financiamento iraniano) e tentar matar cidadãos israelenses. Por esse motivo, Israel criou um bloqueio à entrada de cimento, máquinas e outras coisas que pudessem ser usadas pelo Hamas na criação de armazéns de armas, túneis subterrâneos para contrabando, construção mísseis e nos ataques frequentes que o movimento fazia à Israel (para quem não conhece, procure se informar sobre a rotina da cidade de Sderot antes da guerra contra o Hamas, que era alvo de um míssil por dia). Por esse motivo também que houve a guerra contra o Hamas no final de 2008.
O grande problema dos palestinos na Faixa de Gaza é o Hamas no poder. Este é um movimento que governa sem oposição, comprando e forçando a população a agir de acordo com a agenda do grupo. Isso é feito de forma bastante simples: para oferecer ajuda internacional, os recursos devem passar pelas mãos do Hamas, para que o Hamas distribua os recursos de acordo com os seus interesses. Aqueles que não oferecerem suas casas como base de lançamentos de mísseis serão punidos, tanto com base em redução do acesso à serviços públicos, quanto com base em violência.
O bloqueio a Gaza, no final, tende a enfraquecer o Hamas: em primeiro lugar, o movimento perde recursos para fazer ajuda internacional. Em segundo lugar, as más condições econômicas favorecem o aparecimento de novos grupos que sejam capazes de competir politicamente com o Hamas, seja legal ou ilegalmente. Por fim, mesmo que o Hamas reaja às más condições econômicas com repressão da oposição, ele estará mais enfraquecido assim do que sob boas condições econômicas: se isso não fosse verdade, o Hamas forçaria as más condições econômicas por conta própria e se utilizaria de repressão em momentos de boas condições econômicas (o que não me parece nem um pouco razoável). O povo palestino na Faixa de Gaza se prejudica enormemente dessa situação. Mas devemos deixar bem claro: o problema dos moradores da Faixa de Gaza é o poder do Hamas, e o enfraquecimento do Hamas (com a manutenção de algum grupo pacífico que faça ajuda social) é a única política possível para melhorar a vida dos palestinos no longo prazo. O problema é que não conhecemos nenhuma política diferente de sanções que seja capaz reduzir a força de um movimento político no poder.
Após a longa digressão para entender o porquê do bloqueio econômico à Gaza, eu volto ao caso da flotilla. A flotilla estava em desacordo com a lei de um país democrático e soberano, que impôs um bloqueio econômico a uma região dominada por um movimento terrorista que transforma os seus civis em militares (ao forçá-los a usar suas casas como bases de lançamentos de mísseis). Os membros da flotilla disseram que não entregariam a ajuda nas mãos de Israel, pois eles nao ditribuiriam o cimento, as máquinas e a ajuda de reconstrução. O que eles "não perceberam" é que eles, ao fazer essa escolha, estão entregando a ajuda nas mãos do Hamas. A flotilla não tomou o lado do povo palestino: ela tomou o lado do Hamas contra Israel. Ela agiu na direção de perpetuar um grupo político populista e violento, e de continuar subjugando o povo palestino aos maus governos que o povo tem enfrentado.
O pior é que, quando Israel tenta se proteger e fazer a lei valer, os seus militares são recebidos na base da porrada. A sabedoria popular nos diz: o inferno está cheio de boas intenções, talvez até melhores que as da flotilla.
ATUALIZAÇÃO 1: O relato de serviços de inteligência israelenses sobre a preparação da flotilla está aqui. O relato também fala sobre as ligações do primeiro ministro turco, Recep Tayyip Erdogan com o grupo que organizou a flotilla.
ATUALIZAÇÃO 2: Sobre ligações da organização da flotilla com o Hamas e outros movimentos terroristas árabes, o relato da central de inteligência israelense é esse. Alguém no Brasil tem que dizer qual é o lado de Israel na história...
domingo, 16 de maio de 2010
Pseudo novidade
O instituto Vox Populi acabou de anunciar: sua pesquisa eleitoral aponta Dilma na frente de Serra (Dilma com 38% das intenções de voto, e Serra com 35% das intenções de voto, margem de erro de 2,2 pontos percentuais, sabe se lá a qual nível de confiança, já que eles nunca divulgam isso). É fácil apontar a Dilma na frente do Serra quando a pesquisa pede uma avaliação da qualidade do governo Lula logo antes da pergunta de intenção de voto.
Seria bastante mais correto fazer como o Ibope e o Datafolha estão fazendo: incluir perguntas com avaliações subjetivas do governo Lula somente após a pergunta de intenção de voto. Incluir a pergunta antes lembra o entrevistado das boas ações do governo Lula (já que o atual governo é bastante popular), sem lembrá-lo das potenciais virtudes de Serra, Marina, e outros candidatos. É pouco provável que essa memória seletiva pró governo Lula reflita o estado de espírito do eleitor na hora do voto, que não terá respondido perguntas sobre o quão bom foi o governo Lula logo antes de votar.
Não fiquem demais com as pesquisas eleitorais. Mas se quiserem alguma, fiquem com a do Ibope e do Datafolha.
ATUALIZAÇÃO: O Datafolha acabou de anunciar que, na sua pesquisa, Serra e Dilma estão empatados em 37% das intenções de voto (perceba, se o Datafolha estiver certo, o Vox Populi errou gravemente para baixo as intenções de voto para o Serra, ao ponto do Datafolha estar quase fora do intervalo de confiança anunciado pelo Vox Populi. Isso com duas pesquisas que foram lançadas com uma semana de diferença). Agora, isso é interessante: aparentemente, perguntar para os eleitores sobre a qualidade do governo Lula faz os "não petistas" ficarem mais na dúvida...mas eles não parecem considerar que a Dilma será uma pura continuação do governo Lula.
Seria bastante mais correto fazer como o Ibope e o Datafolha estão fazendo: incluir perguntas com avaliações subjetivas do governo Lula somente após a pergunta de intenção de voto. Incluir a pergunta antes lembra o entrevistado das boas ações do governo Lula (já que o atual governo é bastante popular), sem lembrá-lo das potenciais virtudes de Serra, Marina, e outros candidatos. É pouco provável que essa memória seletiva pró governo Lula reflita o estado de espírito do eleitor na hora do voto, que não terá respondido perguntas sobre o quão bom foi o governo Lula logo antes de votar.
Não fiquem demais com as pesquisas eleitorais. Mas se quiserem alguma, fiquem com a do Ibope e do Datafolha.
ATUALIZAÇÃO: O Datafolha acabou de anunciar que, na sua pesquisa, Serra e Dilma estão empatados em 37% das intenções de voto (perceba, se o Datafolha estiver certo, o Vox Populi errou gravemente para baixo as intenções de voto para o Serra, ao ponto do Datafolha estar quase fora do intervalo de confiança anunciado pelo Vox Populi. Isso com duas pesquisas que foram lançadas com uma semana de diferença). Agora, isso é interessante: aparentemente, perguntar para os eleitores sobre a qualidade do governo Lula faz os "não petistas" ficarem mais na dúvida...mas eles não parecem considerar que a Dilma será uma pura continuação do governo Lula.
terça-feira, 11 de maio de 2010
A entrevista de Serra
O candidato José Serra deu ontem uma entrevista a rádio CBN, na qual falou sobre a autonomia do BC (em resposta a perguntas de Miriam Leitão). O candidato começou falando que manterá, caso seja eleito, a autonomia do Banco Central para fazer política monetária. Após deixar os leitores calmos, porém, o candidato completa com frases como as que seguem:
Para começar, já ouvi ex-presidentes do BC falando que o Fernando Henrique dava autonomia completa e não intervia nas tomadas de decisão de taxa de juros. Além disso, gostaria de saber como o Serra sabe que o Lula faz sentir a sua posição em termos de política monetária.
Mas isso é o de menos. Candidato Serra: o BC erra, mas o senhor também erra, e no momento da decisão de política monetária, ninguém sabe quem está certo (se bem que tendo uma aposta Henrique Meirelles vs. Serra, não é muito arriscado apostar no primeiro). E as questões são: o presidente acha que uma coisa deve ser feita e o presidente do BC acha que outra deve ser feita. Qual é a opinião que vale? Nós queremos que seja a do presidente do BC. O motivo:
- O Presidente da República pode ter incentivos a se aproveitar de expectativas de inflação baixas para liberar a política monetária e, com isso, criar mais empregos. Uma vez que as pessoas percebam isso, elas irão aumentar suas expectativas de inflação, o que impedirá a criação dos empregos e trará maior inflação.
- Por outro lado, em um sistema de metas de inflação (que automaticamente definem uma meta para emprego), o presidente do BC tem incentivos a manter a inflação perto da meta, ao invés de tentar enganar o mercado para trazer um nível de emprego maior. Isso nos dará o mesmo nível de emprego que na situação anterior, só que com menor taxa de inflação.
A explicação do Serra, para dizer que o presidente deve dizer quando a política estiver errada, é uma grande baboseira: o presidente não sabe quando a política está errada (em particular, sendo o Serra o presidente, ele não saberá quando a política estiver errada).
"O Banco Central não é a Santa Sé. Você acha isso, sinceramente, que o Banco Central nunca erra? Tenha paciência"Eu acho que é bom o BC não ser a Santa Sé...mas não vou fazer nenhum comentário muito mais politicamente incorreto...
"Você vê o BC errando e fala: 'Não, eu não posso falar porque são sacerdotes. Eles têm algum talento, alguma coisa divina, alguma coisa secreta tal que você não pode nem falar: Ó, pessoal, vocês estão errados.' Tenha paciência"Essas citações foram dolorosas de ler. Como um candidato, supostamente com diploma de economia, pode falar tanta asneira? Será que os candidatos desse ano estão competindo para ver quem é pior?
"Se houver um erro calamitoso, o presidente tem que fazer sentir sua posição, como o presidente Lula faz e o Fernando Henrique fez."
Para começar, já ouvi ex-presidentes do BC falando que o Fernando Henrique dava autonomia completa e não intervia nas tomadas de decisão de taxa de juros. Além disso, gostaria de saber como o Serra sabe que o Lula faz sentir a sua posição em termos de política monetária.
Mas isso é o de menos. Candidato Serra: o BC erra, mas o senhor também erra, e no momento da decisão de política monetária, ninguém sabe quem está certo (se bem que tendo uma aposta Henrique Meirelles vs. Serra, não é muito arriscado apostar no primeiro). E as questões são: o presidente acha que uma coisa deve ser feita e o presidente do BC acha que outra deve ser feita. Qual é a opinião que vale? Nós queremos que seja a do presidente do BC. O motivo:
- O Presidente da República pode ter incentivos a se aproveitar de expectativas de inflação baixas para liberar a política monetária e, com isso, criar mais empregos. Uma vez que as pessoas percebam isso, elas irão aumentar suas expectativas de inflação, o que impedirá a criação dos empregos e trará maior inflação.
- Por outro lado, em um sistema de metas de inflação (que automaticamente definem uma meta para emprego), o presidente do BC tem incentivos a manter a inflação perto da meta, ao invés de tentar enganar o mercado para trazer um nível de emprego maior. Isso nos dará o mesmo nível de emprego que na situação anterior, só que com menor taxa de inflação.
A explicação do Serra, para dizer que o presidente deve dizer quando a política estiver errada, é uma grande baboseira: o presidente não sabe quando a política está errada (em particular, sendo o Serra o presidente, ele não saberá quando a política estiver errada).
sábado, 1 de maio de 2010
A burocracia
Acabei de saber pela internet de um sujeito, de 18 anos, que enfrenta a seguinte dificuldade:
...tenho 18 anos. Fui tirar a 2ª via do CPF, que tinha perdido semana passada, logo, a atendente fala que eu preciso do Título de Eleitor, que eu não tenho. Fui tirar o Título, ai disseram que preciso estar alistado, e pra estar alistado preciso do CPF.Não é estranho cobrar que o sujeito com mais que 18 anos tenha que estar alistado para tirar o título de eleitor? Afinal, ele pode tirar o título aos 16 anos, quando ele não pode estar alistado. Mais ainda, por que alguém teria que poder pagar o imposto de renda para se alistar no exército? Para quem paga imposto de renda, ser convocado pelo exército não é um benefício (do ponto de vista de que existem empregos que pagam mais para esse cara...talvez seja um benefício se o cara for muito patriota...).
terça-feira, 20 de abril de 2010
Informação sobre os retornos da educação
Entre economistas, é um fato amplamente aceito o de que educação tem retornos bastante altos em termos de salários. Se estima que pessoas com um ano a mais de educação chegam a ter uma renda cerca de 10% maior do que aqueles sem esse ano na escola.
Porém, será que os alunos (e seus pais e amigos) sabem disso? Um paper novo do Robert Jensen no QJE (esse é o abstract, eis uma versão anterior do paper) mostra que não (pelo menos na Republica Dominicana). Em dados de pesquisa de opinião com alunos de 8a. série na República Dominicana, Jensen mostra que os alunos reportam acreditar em retornos muito baixos à escolaridade, apesar das estimativas deste retorno serem bastante altas. Isso, porém, não nos diz muito: não sabemos se o aluno está respondendo que o retorno da escolaridade em termos de salário é baixo; ou se ele está respondendo que não há mobilidade social e que, independente da educação obtida, a renda será a mesma.
Mas eis o que faz o artigo bom: se os alunos desconhecem e subestimam o retorno da escolaridade, a provisão de informação sobre os retornos a escolaridade deve aumentar a ida a escola. Para testar essa afirmação, o autor seleciona aleatoriamente algumas escolas, e informa aos alunos o quanto eles estão subestimando os retornos da educação. Os alunos informados passam mais tempo na escola que os alunos que não foram informados.
O efeito de informação não é grande. A informação faz os alunos passarem somente 2 meses a mais na escola. Mas devemos ressaltar: a informação foi dada para os alunos, e não para os pais. A informação foi dada a somente 15 alunos por escola, o que reduz o espaço para que a informação se espalhe (e com isso, deixamos de ter efeitos de rede). Mais ainda, a informação foi dada na escola, o que pode levar os alunos a desconfiar da qualidade da informação. Imagine qual seria o efeito (em termos de presença na escola) se informássemos os alunos e os pais desses alunos sobre os efeitos positivos de educação, com informação amplamente difundida e provida por fontes nas quais as pessoas acreditam...
Porém, será que os alunos (e seus pais e amigos) sabem disso? Um paper novo do Robert Jensen no QJE (esse é o abstract, eis uma versão anterior do paper) mostra que não (pelo menos na Republica Dominicana). Em dados de pesquisa de opinião com alunos de 8a. série na República Dominicana, Jensen mostra que os alunos reportam acreditar em retornos muito baixos à escolaridade, apesar das estimativas deste retorno serem bastante altas. Isso, porém, não nos diz muito: não sabemos se o aluno está respondendo que o retorno da escolaridade em termos de salário é baixo; ou se ele está respondendo que não há mobilidade social e que, independente da educação obtida, a renda será a mesma.
Mas eis o que faz o artigo bom: se os alunos desconhecem e subestimam o retorno da escolaridade, a provisão de informação sobre os retornos a escolaridade deve aumentar a ida a escola. Para testar essa afirmação, o autor seleciona aleatoriamente algumas escolas, e informa aos alunos o quanto eles estão subestimando os retornos da educação. Os alunos informados passam mais tempo na escola que os alunos que não foram informados.
O efeito de informação não é grande. A informação faz os alunos passarem somente 2 meses a mais na escola. Mas devemos ressaltar: a informação foi dada para os alunos, e não para os pais. A informação foi dada a somente 15 alunos por escola, o que reduz o espaço para que a informação se espalhe (e com isso, deixamos de ter efeitos de rede). Mais ainda, a informação foi dada na escola, o que pode levar os alunos a desconfiar da qualidade da informação. Imagine qual seria o efeito (em termos de presença na escola) se informássemos os alunos e os pais desses alunos sobre os efeitos positivos de educação, com informação amplamente difundida e provida por fontes nas quais as pessoas acreditam...
quarta-feira, 10 de março de 2010
Marxismo
Aluno que disse que nunca mais vai ter que ler uma página de Marx é repreendido por professor por apresentar pensamento que leva ao "obscurantismo, à censura e à criação de Goulags"
Goulags, aqueles mesmos que administravam campos de trabalho forçado na URSS? Tudo bem...vamos supor que o professor ache que Marx não defendia isso. Quem propõe (1) uma teoria toda baseada em firmas maximizando lucros e extraindo mais-valia do trabalhador e (2) faz meio mundo acreditar que economia afeta instituições, cultura, religião mas o oposto não ocorre (como se não pudesse existir causalidade nos dois sentidos) não merece ser lido mesmo...já estamos a frente disso.
Notícia via De Gustibus.
Goulags, aqueles mesmos que administravam campos de trabalho forçado na URSS? Tudo bem...vamos supor que o professor ache que Marx não defendia isso. Quem propõe (1) uma teoria toda baseada em firmas maximizando lucros e extraindo mais-valia do trabalhador e (2) faz meio mundo acreditar que economia afeta instituições, cultura, religião mas o oposto não ocorre (como se não pudesse existir causalidade nos dois sentidos) não merece ser lido mesmo...já estamos a frente disso.
Notícia via De Gustibus.
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